Raimon Panikkar

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VII SIMPÓSIO INTERNACIONAL DAS CIÊNCAS DA RELIGIÃO (PUC-MG)
& XIV SIMPÓSIO INTERNACIONAL FILOSÓFICO-TEOLÓGICO (FAJE)
Tema: “Diálogos inter-religioso e intercultural,
no centenário de Raimon Panikkar”

03-05/10/2018
Campus da Faculdade Jesuíta

 

Apresentação
Afirma-se que as sociedades atuais, principalmente as ocidentais, vivem suas relações e conflitos em contexto de intenso pluralismo cultural e religioso. E que devemos aceitar este fato como um processo inquestionável e universal. No entanto, quando consideramos o Brasil, por exemplo, constatamos que a questão é mais complexa, pois dezenas de comunidades indígenas, distantes dos grandes centros urbanos, vivem hoje em nosso território como sociedades não atingidas ou pouco atingidas pelo pluralismo. Em mais de 200 línguas vivas, expressam-se tradições culturais bem definidas e unitárias.
Ora, isso mostra que o pluralismo deve ser considerado em sua ambiguidade, segundo intensidades e níveis de realização distintos. Por um lado, é certo que a sobrevivência de culturas unitárias num mundo de fronteiras porosas depende do respeito à pluralidade. Por outro lado, este mesmo respeito deveria inspirar um maior cuidado com estas culturas. Caso a mentalidade pluralista das nossas cidades, outro exemplo, fosse promovida em todos os contextos humanos, ela entraria em conflito com numerosas comunidades culturais tradicionais presentes, sobretudo, no hemisfério sul da Terra. O conflito, aliás, já se encontra em curso. Ondas de conquista, violência e hegemonia levantam-se, umas contra as outras, nas águas revoltas das sociedades seculares e pluralistas, ou das sociedades divididas em etnias rivais. Outras, vindas de fora, ameaçam as correntes mais distendidas das comunidades tradicionais relativamente preservadas.
Ora, a consideração acima nos conduz a perguntar pela possibilidade e pelos meios de se promover a convivência entre diversas tradições culturais e religiosas. Dois eixos se destacam e nos ajudam a formular duas questões interconectadas. Primeiramente, perguntamo-nos como respeitar o ritmo e a originalidade das culturas e religiões tradicionais, num mundo globalizante e conquistador? A seguir, como promover uma convivência justa em nossas cidades e sociedades pluralistas?  Estes dois eixos delimitam o problema que os programas de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC-MG, e em Filosofia e Teologia da Faculdade Jesuíta consideram dever ser urgentemente tratado em seus Simpósios Internacionais. Tentemos expressá-lo com maior clareza e detalhe.
O desafio mais urgente parece ser o da agressão à riqueza cultural e religiosa presente, sobretudo, no sul do planeta, e exposta a riscos de destruição frente ao mecanismo instrumental que se globaliza no mundo contemporâneo. Estas tradições não são apenas peças a serem colecionadas para nossos museus do futuro, mas compõem a riqueza de visões e soluções necessárias para a convivência pacífica sobre a terra. Numa perspectiva de justiça socioambiental, a destruição de uma cultura desequilibra o patrimônio simbólico da humanidade e nos enfraquece no enfrentamento dos desafios presentes e por vir.
Em segundo lugar, nota-se a tensão de nossas cidades, que aproximam comunidades muito particulares, cujos valores culturais e religiosos não parecem poder ser conciliados em nenhuma forma de síntese teórica superior, sem que se perca algo ou muito de seu sentido. A primeira reação inteligente diante destas questões é a da teoria multicultural, fundada no reconhecimento das diferenças e na busca de consensos mínimos. Dois princípios desta teoria hão de ser aprofundados em nossas discussões: por um lado, o princípio norteador da busca de consensos por meio do diálogo. Aqui, deseja-se decidir a partir da força do melhor argumento, capaz de deslocar o olhar e o horizonte dos interlocutores e, eventualmente capaz de dotá-los de um horizonte comum. Por outro lado, no domínio da ação, deseja-se criar uma política da igualdade, apoiando-a em estruturas formais de justiça social. O multiculturalismo situa-se, portanto, numa perspectiva de tolerância entre grupos distintos, a qual se faz possível num contexto que admite e promove a universalidade da razão como valor comum.
Os críticos das teorias do reconhecimento perguntarão se esta perspectiva não limita demasiadamente o diálogo e sua fecundidade, uma vez que o consenso mínimo acaba por negar dialeticamente a alteridade, a qual é relegada ao particularismo das comunidades e grupos em busca de superação do conflito. No entanto, a diferença e as particularidades não poderiam, justamente, enriquecer a vida em sociedade? Não estaríamos ocultando o que deveríamos colocar em destaque e calando o que mais nos poderia ensinar? Uma teoria dialógica mais radical aparece quando se relativiza a preocupação em traduzir em linguagem neutra comum os valores religiosos e culturais dos diversos grupos. Neste caso, a força e a graça do diálogo estariam, precisamente, na sua capacidade de fazer-nos compreender o que é diferente, estranho, novo e único. E na disposição de aprender com o outro, sem que isso signifique necessariamente deixar de lado a própria tradição. Busca-se, na verdade, ampliá-la, esclarecê-la e até mesmo corrigi-la no que ela ainda possui de visão e prática violentas. A categoria do “universal”, tão importante para a superação da violência, não seria enriquecida por esta perspectiva? A integração da particularidade e a originalidade na universalidade do discurso e do diálogo não abriria novas possibilidades para a Paz e o Bem?
Aliás, parece-nos urgente compreender melhor o desafio de um diálogo que promova projetos ético-políticos de convivência pacífica, respeito à diversidade e à alteridade. Várias questões devem ser tratadas neste contexto prático: Seria possível e conveniente “interculturalizar a multiculturalidade”? Que limites estas duas propostas apresentam e que novos caminhos teóricos e práticos precisamos percorrer? O que se persegue não é apenas uma visão unitária, a qual pode estabelecer-se como no caso da perspectiva de um reconhecimento mínimo entre diferentes, buscando o que lhes é comum, mas o cultivo e a valorização da diferença e do mútuo aprendizado.
No âmbito do diálogo inter-religioso, o desafio parece ser ainda mais intenso, uma vez que intervêm experiências simbolizadas como “revelação” e “salvação”, expressas de modo surpreendentemente variado. Seria possível um mútuo esclarecimento, no nível teológico, entre as tradições religiosas? Até que ponto ele poderia avançar? A atenção à experiência mística e à espiritualidade abriria novas veredas, rumo a outras travessias e encontros? Igualmente, no que concerne aos temas específicos da convivência comum, da sabedoria prática e da busca de um mundo mais justo, há um caminho já percorrido que pode estender-se sempre mais e que necessitaria ser divulgado e estudado.
É neste contexto do diálogo inter-religioso e intercultural que a figura de Raimon Panikkar surge com grande intensidade. Ao comemorarmos seu centenário de nascimento em 2018, cremos que o apelo contemporâneo à promoção de uma cultura do diálogo é também uma oportunidade para valorizar a obra desse pensador multifacetado, teólogo, filósofo e cientista, padre católico apaixonado pela Índia, hindu e budista. Como ele mesmo dizia “eu comecei como um cristão, descobri que era hindu e retornei como budista, sem jamais ter deixado de ser um cristão”, pois “quanto mais temos a coragem de trilhar novos caminhos, mais devemos permanecer enraizados em nossa própria tradição, abertos aos demais, que nos fazem ver que não estamos sozinhos e nos permitem alcançar uma visão mais ampla da realidade”.
Nossa esperança, portanto, é que o Simpósio Internacional “Diálogos Inter-religoso e  Intercultural, no centenário de Raimon Panikkar” represente um importante avanço no estudo destas questões fundamentais para o presente e o futuro das próximas gerações, chamadas a viver num Planeta não mais dividido e em conflitos, mas transformado em “Casa Comum”.
Comissão organizadora
FAJE: Professores Álvaro Mendonça Pimentel e Geraldo Luiz De Mori (Coordenadores), Elton Vitoriano Ribeiro, Marco Heleno Barreto (Filosofia), Luís Augusto Herrera e Sinivaldo Silva Tavares (Teologia).
PUC-MG: Professores Rita Grassi e Carlos Frederico Barboza de Souza (Ciências da Religião).

 

PROGRAMAÇÃO PREVISTA
Conferências
As conferências visam formular e esclarecer a questão do Simpósio e a contribuição de Panikkar.
03/10, às 19h30
Milena Carrara. Título Sugerido: Vida e obra de Raimon Panikkar
04/10, às 8h00
Raul Fornet-Betancourt. Título Sugerido: Desafios da interculturalidade em contextos do mundo contemporâneo.
05/10, às 8h00
Faustino Luiz Couto Teixeira. Título Sugerido: Mística e diálogo inter-religioso, na obra de Panikkar.

Painéis
Discussão crítica da questão.
04.10, às 10h
1 Eduardo Batalha Viveiros de Castro e Pedro de Niemeyer Cesarino: O Respeito à tradição indígena no Brasil contemporâneo.
2 José Luis Mesa Rueda e ?????: Antropologia teológica e diálogo inter-religioso: imagens de Deus, imagens do Homem.
05.10, às 10h
3 Raul Fornet-Betancourt e Marcos Severino Nobre (Unicamp): Abordagem crítica do diálogo intercultural: possibilidades e limites.
4 Faustino Luiz Couto Teixeira e Frank Usarski: O diálogo inter-religioso nas ciências da Religião.

Seminários
Apresentam estudos de temas introdutórios ou específicos relacionados à questão dos diálogos intercultural e inter-religioso
04 e 05.10, às 14h
1 Luis Augusto Herrera e Sinivaldo Silva Tavares (Faculdade Jesuíta): Interculturalidade e diálogo inter-religioso, na América.
2 Luiz Carlos Sureki e Elton Ribeiro (Faculdade Jesuíta): Multiculturalismo e Diálogo Inter-religioso: Charles Taylor e Raimon Panikkar.
3 Rita Grassi e Roberlei Panasiewicz (PUC-MG): Diálogo inter-religioso e pluralismo, na sociedade Brasileira
4 Carlos Frederico Barboza Souza (PUC-MG): Diálogo inter-religioso e Mística em Raimon Panikkar
5 Jaume Agusti (Fundação Vivarium Raimon Panikkar) : Ciência e Espiritualidade, em Raimon Panikkar.
6 José Tolentino Mendonça (Universidade Católica de Portugal): Evangelização e Cultura, ou Linguagem e mística
7 Frank Usarski (PUC-SP): Budismo e hinduísmo, diálogos (im)possíveis?
8 José Luis Meza Rueda (Javeriana): Antropologia teológica em Panikkar
9 Maria Cecília Simões(UFJF): Espiritualidade e cultura indígena.
10 Eduardo Batalha Viveiros de Castro (UFRJ): Introdução à realidade indígena brasileira

 

«La meva aspiració
no consisteix tant a defensar la meva veritat
com a viure-la.»